segunda-feira, 27 de julho de 2009

ATIVIDADE PARA RECUPERAÇÃO

Olá meus amigos. Contava me encontrar com você nesta semana, mas infelizmente vamos ter que esperar mais um pouco. Para aproveitar o tempo estou lhes remetendo o tema para o trabalho de recuperação para aqueles que tiraram nota inferior a sete na avaliação sobre Sócrates. Até breve.

Apologia de Sócrates
O papel do filósofo
Platão
[...] Talvez alguém diga: “Sócrates, será que você não pode ir embora, nos deixar em paz e ficar quieto, calado?”. Ora, eis a coisa mais difícil de convencer alguns de vocês.
[1] Pois se eu disser que al conduta seria desobediência ao deus e que por isso não posso ficar quieto, vocês acharão que estou zombando e não acreditarão.
[2] E se disser que falar diariamente da virtude e das outras coisas sobre as quais me ouvem falar e questionar a mim e a outros é o bem maior do homem e que a vida que não se questiona não vale a pena viver, vão me acreditar menos ainda.
E assim é, senhores, mas não é fácil convencê-los.
Além do mais, não estou acostumado a pensar que mereço punição alguma. Se tivesse dinheiro proporia uma multa, a maior que pudesse pagar, pois isso não me causaria nenhum dano. Mas o fato é que não tenho dinheiro, a não ser que queiram impor uma multa que eu possa pagar. Talvez eu possa pagar uma mina de prata [100 dracmas]. De modo que proponho essa penalidade. Mas Platão aqui presente, atenienses, e Críton, Critóbulo e Apolodoro aconselham-me a propor trinta minas, oferecendo-se como fiadores. Então proponho uma multa nesse valor e estes homens serão meus fiadores mais que suficientes.
Não passará muito tempo, atenienses, e serão conhecidos e acusados pelos detratores do Estado como assassinos de Sócrates, um sábio; pois sabem que quem quiser difamá-los dirá que fui sábio, embora não o seja.
Agora, se tivessem esperado um pouco, o que desejam teria ocorrido espontaneamente: pois vêem como estou velho, quão avançado em anos e próximo da morte. E a eles também tenho algo a dizer.
Talvez pensem, senhores, que fui condenado por me faltarem as palavras que os teriam feito absolver-me caso achasse correto fazer e dizer tudo para conseguir a absolvição. Longe disso. E no entanto foi por uma falta que me condenaram, não todavia uma falta de palavras, mas de cinismo e descaramento, além da falta de vontade de dizer-lhes as coisas que vocês mais gostariam de ouvir. Vocês gostariam de me ouvir gemer e lamentar e dizer e fazer coisas que insisto, são indignas de mim – coisas que vocês estão acostumados a ouvir de outros.
Mas, não achei que devesse, ante o perigo em que me encontrava, fazer coisa alguma indigna de um homem livre, nem me arrependo agora de ter feito minha defesa como fiz, mas prefiro morrer depois de uma defesa dessas do que viver depois de uma defesa de outro tipo. Pois nem no tribunal nem na guerra devemos, eu ou qualquer outro homem, tentar escapar da morte seja qual for o preço.
Nas batalhas é muito comum um homem evitar a morte depondo as armas e implorando misericórdia aos perseguidores; e há muitas outras maneiras de escapar à morte ante perigos diversos quando se aceita fazer e dizer qualquer coisa.
Ms, senhores, não é difícil escapar à morte; muito mais difícil é escapar a iniqüidade, pois essa corre mais do que a morte. E agora que sou velho e lento, me alcança a mais vagarosa das duas, enquanto meus acusadores, espertos e rápidos, são alcançados pela mais veloz.
Ora, pois, irei embora, condenado por vocês e sentenciado à morte, e eles serão condenados pela verdade, por vilania e erro. Espero a minha pena; eles, a deles. Talvez as coisas tivessem que ser assim e acho que estão bem.
E agora desejo fazer uma profecia a vocês que me condenaram: pois me encontro agora no momento em que os homens mais profetizam, que é pouco antes da morte. Digo-lhes, homens que me executam, que o castigo recairá sobre vocês logo após a minha morte, muito mais atroz que o castigo que me impõem. Porque fazem isso comigo na esperança de não ter que prestar contas de suas vidas, mas lhes digo que o resultado será bem diferente. Aqueles que irão forçá-los a prestar contas serão em número bem maior do que o foram até aqui – homens a quem refreei, embora vocês não soubessem disso – e muito mais duros, na medida mesma em que mais jovens, e vocês ficarão mais ofendidos. Porque se pensam que condenando homens à morte evitam a reprovação dos seus atos errôneos, estão enganados. Essa escapatória de modo algum é possível nem honrosa; a saída mais fácil e digna não é eliminar os outros, mas tornar-se bom ao próximo. E com essa profecia para os que me condenaram, retiro-me.
Mas aos que votaram pela minha absolvição gostaria de falar sobre o que me aconteceu, enquanto as autoridades estão ocupadas e antes que chegue a hora de ir para o lugar onde devo morrer. Esperem comigo até lá, meus amigos, pois nada impede que conversemos enquanto ainda há tempo.
Sinto que vocês são meus amigos e quero lhes mostrar o significado disso que me sucedeu.
Pois, juízes – e chamando-os assim dou-lhes o nome correto –, uma coisa maravilhosa aconteceu comigo. Pois te aqui o oráculo costumeiro me falou com freqüência, opondo-se a mim até nas menores questões se acaso eu pretendesse fazer algo que não devia; mas agora, como vêem, recaiu sobre mim esse que deve ser e é geralmente considerado maior dos males; e o sinal divino não se me opôs nem quando saí de casa de manhã nem quando cheguei aqui ao tribunal ou em qualquer momento do meu discurso, embora em outras ocasiões tenha muitas vezes interrompido minhas palavras; agora, porém, neste caso, não se opôs a coisa alguma que eu quis fazer ou dizer.
Que razão suponho para isso?
Vou dizer-lhes.
Isso que me aconteceu é sem dúvida uma coisa boa e os que acham a morte um mal devem estar enganados. Prova disso, convincente, me foi dada, pois com certeza teria deparado o costumeiro sinal de oposição se não estivesse indo o encontro de alguma coisa boa.
Vejamos, também, de outra forma como há bom motivo para esperar que seja uma boa coisa. Pois, de duas, uma:
[1] ou a morte é um nada e assim o morto não tem consciência de coisa alguma;
[2] ou, como diz o povo, é uma mudança de estado, uma migração da alma deste lugar para outro.
Se for inconsciência, como um sono em que sequer sonhamos, a morte é um ganho maravilhoso. Pois acho que se comparasse uma noite de sono sem sonhos com as outras noites e dias de sua vida, depois de pensar bem, quantos dias e noites teve na vida mais agradáveis do que aquela, qualquer pessoa – e não somente o homem comum, mas mesmo o grande Rei da Pérsia – veria que foram poucos. Portanto, se tal for a natureza da morte, creio que é lucro, pois nesse caso toda a eternidade não parecerá mais que uma noite.
Mas, por outro lado, se a morte é, por assim dizer, uma mudança de casa daqui para algum outro lugar e se, como afirmam, todos os mortos estão lá, que bênção maior poderia existir juízes? Pois, se ao chegar no outro mundo, deixando para trás os que se dizem juízes, o homem vai encontrar os verdadeiros juízes que ali se reuniriam em julgamento, Minos, Radamanto, Éaco, Triptólemo e todos os outros semideuses que forma homens justos em via, seria indesejável a troca de moradia? Ora, o que não dariam vocês para encontrar Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? Quero morrer muitas vezes se tudo isso for verdade, pois acharia a vida lá maravilhosa ao encontrar Palamedes e Ájax Telamônio ou quaisquer dos antigos que perderam a vida por julgamento injusto e comparar minha experiência com a deles. Acho que isso não seria desagradável.
E o maior prazer seria passar o tempo analisando e investigando as pessoas de lá, como faço com as daqui, para descobrir quem é sábio e quem pensa que é, mas não é.
Quanto vocês não dariam, juízes, para investigar aquele que comandou o grande exército contra Tróia ou Odisseu, Sísifo e inúmeros outros homens e mulheres que eu poderia mencionar?
Reunir-se e conversar com eles, estudá-los, seria imensa felicidade. Pelo menos as pessoas lá não matam gente por causa disso, pois, se é verdade o que diz o povo, são para sempre imortais, além de mais felizes sob aspectos que os homens daqui.
Mas vocês também juízes, devem encarar a morte com esperança e não perder de vista esta verdade única: que nenhum mal pode atingir um homem bom, seja em vida ou após a morte, pois Deus não o abandona. Portanto, também isso que me aconteceu não foi por acaso; vejo plenamente que é melhor para mim morrer agora e ficar livre dos problemas.
Foi por essa razão que o sinal não interferiu e não estou de forma alguma zangado com os que me condenaram ou acusaram. No entanto, não foi com isso em mente que eles me acusaram e condenaram, mas pensando em me ferir. Pelo que merecem a culpa.
Faço-lhes, porém, esta petição: punam meus filhos quando eles crescerem, senhores, perturbando-os como eu perturbei vocês; caso lhes pareça que eles se preocupam menos com a virtude do que com dinheiro ou outra coisa qualquer e pensam ser mais do que são, repreendam-nos como eu repreendi vocês por se preocuparem com o que não deveriam e acharem que significam alguma coisa quando não valem nada. Se fizerem isso, tanto eu quanto meus filhos teremos recebido o justo tratamento.
É chegado, porém, o momento de partir.
Vou morrer e vocês viverão, mas só Deus sabe a quem cabe o melhor quinhão.

QUESTÕES PARA REFLEXÃO
1- Segundo Sócrates, qual o papel do filósofo?
2- Como podemos entender a afirmação de Sócrates de que “a vida sem reflexão não vale a pena sr vivida”?
3- Como Sócrates responde às acusações que lhe são feitas?


CRÍTON
Sócrates e as leis de Atenas
(50) S - Daí, presta atenção. Saindo daqui, desobedientes à cidade, lesamos a alguém e logo a quem menos devemos lesar, ou não? E cumprimos as convenções justas que firmamos, ou não?
C- Não sei responder a tuas perguntas, Sócrates; não as estou compreendendo.
S- Bem, reflete no seguinte. Se, no momento em que eu estivesse para me avadir daqui, ou como quer que se diga, chegassem as Leis e a Cidade, assomassem perguntado: "Dize-nos, Sócrates: que pretendes fazer? Que outra coisa meditas, com a façanha que intentas, senão destruir-nos a nós, as Leis e toda a Cidade, na medida de tuas forças? Acaso imaginas que ainda possa subsistir e não esteja destruída uma cidade onde nenhuma força tenham as sentenças proferidas, tornadas inoperantes e aniquiladas por obra de simples particulares?" - Que responder, Críton, a essas e semelhantes perguntas? Muitos argumentos poderiam ser aduzidos, sobretudo por um orador, em defesa da lei por nós violada que estabelece a autoridade das sentenças proferidas. Acaso responderei que a Cidade me agravou, não me julgou, conforme a justiça? Direi isso? Direi o quê?
C- Isso mesmo, por Zeus, ó Sócrates!
S- E se então, as Leis dissessem: "Sócrates, o que convencionaste conosco foi isso, ou que submeterias às sentenças que a Cidade proferisse?" Se me admirasse dessa pergunta, diriam, talvez: "Sócrates, não te admires de nossas perguntas, mas responde-nos, porque tu também costuma lançar mão de perguntas e respostas. Vamos, pois; qual queixa contra nós e contra a Cidade, que te move à nossa destruição? Para começar, não fomos nós que te demos nascimento e não foi por nosso intermédio que teu pai desposou tua mãe e te gerou? Dize: apontas algum defeito naquelas dentre nós que regulam os casamentos? Achas que não estão bem feitas? - Não aponto defeitos, diria eu. - Então nas que regulam a criação e educação do filho, que também recebeste? Aquelas que de nós regem a matéria, ao mandarem que teu pai te ensinasse música e ginástica, não o fizeram com acerto? - Fizeram, diria eu. - Bem; depois que nasceste, que te criaram e que educaram, poderia, de começo, negar que nos pertences, como filho nosso e nosso escravo, assim tu com teus ascendentes? E, se assim é, julgas ter ao menos os mesmos direitos que nós? julgas ter o direito de fazer-nos em represália o mesmo que tentamos fazer a ti? Ora, em face do teu pai não terias os mesmos direitos, nem em face de teu amo, se amo tivesse, para retaliar o que te fizessem, nem para revidar doesto por doesto, golpe por golpe, nem para outros desforços; mas, em face da pátria e das Leis, se tentarmos destruir-te por assim acharmos de justiça, terás o direito de tentar, da tua parte também, (51) dentro das tuas forças, destruir-nos em desforra a nós, as Leis e a pátria? e dirás que, assim procedendo, obras com justiça tu, que verdadeiramente tomas a virtude a sério?! Que sabedoria é a tua, se ignoras que, acima de tua mãe, teu pai e todos os outros teus ascendentes, a pátria é mais respeitável, mais venerável, mais sacrossanta, mais estimada dos deuses e dos homens sensatos? que se deve mais veneração, obediência e carinho a uma pátria agastada do que a um pai? que o dever é ou dissuadi-la ou cumprir seus mandados, sofrer quietamente o que ela manda sofrer, sejam espancamentos, sejam grilhões, seja a convocação para ser ferido ou morto na guerra? Tudo isso deve ser feito e esse é o direito - não esquivar-se; não recuar; não desertar o posto; mas, quer na guerra, quer no tribunal, em toda a parte, em suma, cumpre ou executar as ordens da cidade e da pátria ou obter a revogação palas vias criadas do direito. É impiedade usar de violência contra a mãe e o pai, mas ainda muito pior contra a pátria do que contra eles." Que responderei a isso, Críton? Que as Leis dizem a verdade, ou que não?
C- Acho que sim.
S- "Vê, portanto, Sócrates" diriam talvez as Leis, " temos razão em tachar de injusto o que intentas fazer-nos agora. Nós que te geramos, te criamos, te educamos, te admitimos à participação de todos os benefícios que podemos proporcionar a ti e a todos os demais cidadãos, sem embargo, proclamamos termos facultado ao ateniense que o quiser, uma vez entrada na posse dos direitos civis e no conhecimento da vida pública e de nós, as Leis, se não formos de seu agrado, a liberdade de juntar o que é seu e partir para onde bem entender. Se, por não lhe agradarmos nós e a cidade, algum de vós quiser rumar para uma colônia ou quiser fixar residência em qualquer outro país, nenhuma de nós, as Leis, o impede ou proíbe de seguir para onde lhe parecer, levando o que é seu. Mas quem dentre vós aqui permanece, vendo a maneira pela qual distribuímos justiça e desempenhamos as outras atribuições do Estado, passamos a dizer que convencionou conosco de fato cumprir nossas determinações; desobedecendo-nos, é réu tresdobradamente: porque a nós que o geramos não presta obediência; porque não o faz a nós que o criamos e porque, tendo convencionado (52) obedecer-nos, nem obedece nem nos dissuade se incidimos nalgum erro; nós propomos, não impomos com aspereza o cumprimento de nossas ordens, e facultamos a escolha entre persuadir-nos do contrário e obedecer-nos; ele, porém, não faz nem uma coisa nem outra. Tais são os crimes, Sócrates, em que, se puserem em prática o teu plano, te declaramos incurso, mais do que os outros atenienses." Se então eu perguntasse: "Como assim?", talvez ralhassem comigo com razão, dizendo estar eu mais do que os outros atenienses preso àquele compromisso para com elas. Diriam: " Dispomos, Sócrates, de fortes provas de que nós e a cidade somos do teu agrado. Tu não terias assistido nela mais do que todos os outros atenienses, se ela não te agradasse mais do que a todos; mas nem para uma festa jamais saíste da cidade, salvo uma única vez para os jogos do Istmo; nem para qualquer lugar do exterior, a não ser como combatente; nem outra viagem jamais empreendeste, como os demais, nem te deu vontade de conhecer outras cidades e outras leis, mas nós e nossa cidade te havemos bastado, a tal ponto nos preferias e convinhas em seres cidadãos sob a nossa soberania. Por sinal que até geraste filhos nela, dando a entender que a cidade te agradava. Demais, mesmo durante o processo, se quisesses, podias obter a condenação ao exílio e fazer então, com o consentimento da cidade, o que pretendes fazer agora sem ele. Então, bravateavas tu que não te revoltarias, se houvesses de morrer; ao contrário, preferias, com declaravas, a morte ao exílio; mas agora não fazes honra àquelas palavras, nem hesitas na tentativa de aniquilar a nós, as Leis; fazes o que faria o mais vil dos escravos, tentando a fuga contra as convenções e acordos, pelos quais te obrigaste para conosco aos deveres de cidadão. Reponde-nos primeiro a esta pergunta: é verdade o que dizemos quando afirmamos que te obrigaste aos deveres de cidadão sob nosso império, não em palavras, mas de fato, ou é mentira?" - Que hei de dizer a isso, Críton? Posso discordar?
C- Forçosamente que não, Sócrates.
S- "Que fazes", diriam, "senão ladear as convenções e acordos que conosco firmaste sem coação, sem engodo, sem a urgência de resolver em tempo exíguo, mas através de setenta anos, durante os quais te era facultado emigrar, se nós te desprazíamos e se descobrisses serem injustas as convenções? Mas tu não preferiste nem Esparta nem Creta, que vives dizendo dotadas de boas leis, nem qualquer das (53) outras cidades, gregas ou estrangeiras; daqui não te afasta-te mais do que os coxos, os cegos e outros mutilados, tanto, mais do que aos outros atenienses, te agradava a cidade, bem como nós, as Leis, evidentemente; pois a qual agradaria uma cidade com exceção das leis? Agora, porém, não é? não manténs os compromissos! Sim Sócrates, tu os manterás, se nos atenderes, e não te sujeitarás ao ridículo de abandonar a cidade. Vamos, reflete; ladeando os compromissos e cometendo semelhante falta, que benefício trarás para ti e para teus amigos? Que teus amigos também correrão o perigo serem exilados e privados de cidadania e de seus bens, está fora de dúvida; quanto a ti, para começar, se partires para uma das cidades mais próximas - digamos Tebas ou Mégara, que ambas têm boas leis- ali entrarás, Sócrates, como inimigo de suas instituições; todos quanto zelam por suas cidades te olharão de través, como um destruidor das leis; consolidarás a reputação de teus juízes, de sorte que pareçam haver-te julgado escorreitamente, porque todo violador das leis bem pode ser tido como corruptor dos jovens e dos levianos. Ou acaso evitarás, as cidades de boas leis e os homens mais morigerados? E valerá a pena viveres com esse comportamento? Ou entrarás em contato com eles e discorrerás, sem acanhamento... sobre o que, Sócrates? Sobre os teus assuntos daqui? Sobre o supremo valor que tem para a humanidade a virtude, a justiça, assim como a legalidade e as leis? E não achas que o papel de Sócrates se manifestará indecoroso? Tens de achar. Admitamos que, afastando-se desses lugares, vás para a Tessália, para junto dos hóspedes de Críton, porque lá sobeja a desordem e a licença, e quiçá gostariam de te ouvir contar como foi cômica a tua fuga da prisão, em travesti, metido num surrão de couro ou noutro disfarce habitual dos evadidos, e dissimulando esse jeito que é teu. Não haverá quem diga que, homem de idade, com pouco tempo provável de vida, não te pejaste de te agarres tão pegajosamente à existência, burlando as leis mais veneráveis? Talvez, se não magoares a ninguém; caso contrário, irás ouvir, Sócrates, indignidades incontáveis. Viverás de granjear o favor de toda gente, assujeitado, a fazer o quê? senão levar a vida regalada na Tessália como se lá tivesse ido para um banquete? E aquelas palestras sobre a justiça e outras formas de virtude? (54) Por onde nos andarão elas? oh! sim, é por amor dos filhos que desejas viver, para os criares e educares! Mas, daí? Vais levá-los para Tessália, torná-los estrangeiros de criação e formação, para que te fiquem devendo mais esse benefício? Ou não será assim? Será que, estando tu vivo e sento eles criados aqui, terão melhor criação e formação sem a tua companhia, pois teus amigos é quem cuidarão deles? Então, se partires para a Tessália, eles cuidarão, mas não hão de cuidar se partires para Hades? Se tem algum préstimo deveras os que protestam, amizade, hás de admitir que sim. Não, Sócrates; ouve-nos a nós que te criamos: não sobreponhas à justiça nem teus filhos, nem tua vida, nem qualquer outra coisa, para que, chegado ao Hades, possa alegas todas essas justificações perante os que lá governam. Está claro que, com aquele procedimento, aqui não será melhor, nem mais justo, nem mais pio, para ti nem para nenhum dos teus; nem lá será melhor, quando tiveres chegado. Presentemente, partirás, se partires vítima de injustiça, não nossa, das Leis, mas dos homens; se porém te evades, retribuindo assim vergonhosamente a injustiça, o dano com o dano, logrando próprios compromissos e acordos conosco, em detrimento daqueles a quem menos devias lesar, de ti próprio, de teus amigos, da tua pátria e nosso, nós, enquanto viveres, estaremos indignadas contigo e, lá embaixo, nossas irmãs, Leis de hades, não hão de te acolher com benevolência, sabedoras do que nos procuraste arruinar na medida de tuas forças. Oh! Não! não possa mais Críton persuadir-te a fazer o que ele dia com mais força do que nós !" Essa recriminação, Críton, meu querido companheiro, fica certo, parece-me que as estou ouvindo, tal como aos coribantes parece estarem ouvindo o som das flautas; é a ressonância mesma dessas palavras que zumbe no meu íntimo e não me deixa ouvir a outrem. Por isso, acredita-me, tanto quanto creio agora, o que disseres em sentido diverso, di-lo-ás em vão. No entanto, se esperas algum resultado, podes falar.
C- Não, Sócrates; não tenho o que dizer.
S- Então desista, Críton, procedamos daquela forma, porque tal é o caminho por onde a divindade nos guia.

QUESTÕES PARA REFLEXÃO
1- Por que, segundo Sócrates, é importante ouvir as leis de Atenas?
2- Quais os argumentos que as leis de Atenas contrapõem à proposta de Críton para que Sócrates fuja para o exílio?
3- A condenação de Sócrates, tendo sido injusta, permite que ele escape da sentença de morte e fuja para o exílio, como quer Críton, ou a fuga significa responder a uma injustiça com outra? Qual o argumento de Sócrates a esse respeito?

11 comentários:

  1. Professor, é o Robson (de Salto), eu não lembro que nmota tirei nessa avaliação, o sr. poderia me informar?
    Desde já obrigado :D

    ResponderExcluir
  2. João Paulo Magnusson30 de julho de 2009 13:01

    Professor, este trabalho será entregue em modelo cientifico ou normal ?
    xoxo :D

    ResponderExcluir
  3. Olá Robson e João Paulo. Que bom poder falar com vocês.
    Respondendo às suas perguntas: Robson, você não precisa fazer o trabalho, embora eu recomende a leitura e reflexão para todos, como complemento da formação que estão tendo. João Paulo, é apenas para responder às questões com base nos textos e em nossas aulas, apresentando-as preferencialmente digitadas.
    Um abraço.
    Prof. Apareci

    ResponderExcluir
  4. professor, tudo bom?
    por favor, o sengor pode me informar se eu preciso fazer esse trabalho?
    até mais1
    João Giponi (itu)

    ResponderExcluir
  5. Professor, aqui é o Matheus Ruiz (Itu)
    Gostaria de saber se eu preciso fazer esse trabalho?
    Muito obrigado
    até mais

    ResponderExcluir
  6. Professor, é o Glauco de Salto

    Gostaria de saber se a atividade de recuperação compreende os dois textos:CRÍTON e APOLOGIA DE SÓCRATES.

    Desde já obrigado!

    ResponderExcluir
  7. Olá meus amigos. Que bom falar com vocês.
    Respondendo às questões: João e Matheus, vocês precisarão fazer a atividade. Glauco, é para utilizar os dois textos.
    Um abraço e bom filosofar a todos.
    Prof. Aparecido

    ResponderExcluir
  8. Prof° eh o caio mauricio de itu eu também não lembro a minha nota para saber se eu preciso fazer o trabalho,gastaria que você falasse se eu preciso

    ResponderExcluir
  9. Olá Caio, boa noite.
    Obrigado pelo seu contato. Quanto ao trabalho, você precisa fazê-lo sim.

    Um abraço

    Prof. Aparecido

    ResponderExcluir
  10. Olá prof° Aparecido!

    Fiquei sabendo hoje sobre esse trabalho de recuperação, gostaria de saber se eu (Natália Torres - Itu) precisarei de realizá-lo.

    Desde já agradeço, um abraço e até segunda!

    ResponderExcluir
  11. Olá Natália. Que bom poder falar com você. Está com saudades das aulas?

    Quanto à sua pergunta, você não precisa fazer o trabalho.

    Um abraço

    Prof. Aparecido

    ResponderExcluir